UM POUCO DA HISTÓRIA DA TATUAGEM
Por ser uma prática muito comum entre os internos das unidades prisionais, contamos, aqui, uma pequena parte da história das tatuagens e disponibilizamos, também, algumas imagens com os seus significados.
Ouvimos dizer que, na História, a tatuagem remonta à antigüidade, mais especificamente, à pré-história da humanidade.
Em seu contexto, esses sinais podem traduzir o caminhar dos povos pelo mundo, os traços sociais de seus clãs e tribos, entre outras situações. Esses sinais, finamente elaborados, impressos na pele de pessoas que viveram em época remota e estampadas nos murais das cavernas, expressam, em suas formas, informações valiosas para os pesquisadores sobre as características dos povos e os rumos que tomaram para sua sobrevivência.
Embora faltem registros sobre a origem das tatuagens, alguns historiadores têm o entendimento de que surgiram por acaso. Talvez, advinda de um processo de cicatrização da pele, ocasionalmente ferida e curada pela aplicação, no local, de alguma substância extraída da natureza, fuligem da queima de madeiras e folhas, ou outra matéria orgânica "in natura".
As marcas, permanentes, deixadas nesse processo rudimentar, começam a sugerir formas e desenhos, que passam a ser associadas à dor, ao sofrimento e à coragem de quem as têm, embora ocasionadas em incidentes fortuitos.
Do acaso ao intencional foi um passo.
Outras experiências se repetem, Outras marcas são, desse modo, elaboradas pelo próprio homem, para demonstrar suas mais valiosas virtudes e apresentar-se diante de seus iguais, ou oponentes como alguém forte, poderoso e digno de respeito. Ao mesmo tempo, desenhos são formatados para caracterizar clãs, diferenciando tribos, status dos indivíduos e origens de família, entre outros propósitos.
A arte surge quase que automaticamente.
A pesquisa sobre o significado das pinturas em cavernas e em corpos mumificados, encontrados em todos os continentes do planeta, constata a efetiva existência de tatuagens, com padrões bem definidos e que, curiosamente, são usados, ainda hoje, pelos aficionados dessa prática.
Algumas descobertas significativas e técnicas de tatuar podem ser relatadas:
O caso "iceman" ("glacierman" ou "Ötzi"): múmia de homem congelado, datado de 5000 anos, encontrada nos Alpes europeus, entre a Itália e a Áustria. O corpo, bastante preservado no gelo, mostra uma série de tatuagens ao longo da coluna, com padrões de pontos e linhas simples, somando, ao todo, 57 sinais.
Entre
os esquimós: consideradas as mais antigas de que se tem notícia, foram
encontradas em sepulturas na região de Pazyryk, ao sul da Sibéria.
O 1º corpo, bem preservado, ornamentado e cercado de objetos e jóias, foi
descoberto em 1948. Data de 2500 anos e, assim como "Ötzi",
permaneceu no gelo todo esse tempo. Suas tatuagens foram reproduzidas por
pesquisadores da Dinamarca e, segundo eles, demonstravam o status de
chefe de tribo em seus desenhos. A prática esquimó pode ter sido,
eventualmente absorvida pelos vikings na Escandinávia, uma vez que entre
muitos achados da época estão facas, utensílios para raspar a pele,
agulhas e furadores, sugerindo um verdadeiro "kit tatuagem"
da Idade do Bronze, período estudado.
Entre os celtas, atravessando a Idade do Bronze e chegando à Idade do Ferro, a cultura das tatuagens toma nova feição, com figuras mais elaboradas, contendo em seus padrões, influência esquimó.
Entre os Egípcios e os povos das Américas Central e do Sul (Maias, Incas) e mesmo entre os indígenas norte-americanos, as tatuagens passam a ser vistas com bastante freqüência, sendo temporárias, no caso de marcas para a guerra, para festividades e cultos religiosos, e permanentes, para demarcar posição no grupo social, etc.
No Tahiti, onde se originou a palavra TATUAGEM (do verbete polinésio "tatatau"), os sinais passam a ser marcados com agulhas, feitas de dente de porco, acopladas a uma fina vara de bambu, que, mergulhadas em tinta preta, vão desenhando a pele atavés de pequenas injeções, até sua aderência definitiva. O som emitido na aplicação desse processo assemelhava-se à palavra aculturada por vários povos, entre os quais, ingleses (tattoo), dinamarqueses (tatovering), italianos (tatuággio), alemães (tätowierung), espanhóis (tatuaje) e portugueses (tatuagem).
No Japão, essa prática passa a ser reconhecida internacionalmente por suas cores, formas artísticas e proporções (o corpo todo tatuado), na busca de beleza e em nome da arte.
Na África, os pigmentos são aplicados até formarem uma cicatriz em alto relevo, chamadas quelóides, dando, apenas, uma nuance de cor mais escura na pele. O processo é mais doloroso e demorado.
Na Europa atual e América, são inúmeras as formas de tatuagens e suas motivações.
Do preconceito à aceitação desse fenômeno cabe entender que a tatuagem, de fato, faz parte das culturas e processos sociais de comunicação e expressão. Todavia, por muitas pessoas são vistas com boa dose de discriminação.
Apesar de existir, desde a Antigüidade, como dissemos no início dessa síntese, seus elos históricos, com os credos e as religiões através do tempo, apresentam-na como marcas demoníacas, incluindo-se, para a infelicidade dos indivíduos que as tinham, sinais de nascença, dos quais não podiam se furtar, ou esconder por muito tempo. A Inquisição é farta em acusar pessoas e a torturar inocentes em razão dessas marcas, não importando sua natureza.
Assim, a seleção de cidadãos ordenada pela Igreja Católica, no período da Idade Média, era feita como forma de repelir, da sociedade, aqueles que não comungavam com suas crenças. Daí o banimento dos chamados povos bárbaros da Europa Ocidental, fossem normandos, celtas, vikings, ou saxões, pertencentes a civilizações pagãs e considerados, por isso, malditos.
Talvez tenha surgido ai o sentido negativo da tatuagem, como marca do mal, e via de conseqüência, como "coisa de gente sem destino" (marinheiros), "criminosos" e, finalmente, "presos".
O estigma do excluído, maculado nas imagens grafadas em seu corpo, portanto, aparece e toma lugar na história da delinqüência e do cárcere, em todo o mundo.
As tatuagens fotografadas entre os prisioneiros, que fazem parte do acervo do Museu Penitenciário Paulista, foram objeto de estudo e constam de álbuns com referenciais sobre a nacionalidade, laços familiares, idades e outras características biológicas e sociais de seus portadores.
Dos marinheiros, com âncoras de navios desenhadas no braço, até os corações das amadas e caracteres orientais, com nomes de gente e frases comunicando mensagens de natureza literária ou poética, as tatuagens vão se diversificando no tempo e no mundo, conforme as necessidades do homem em traduzir, no próprio corpo, as marcas de sua vida, com significados múltiplos, mas perpetrados até o esgotamento de sua matéria.